terça-feira, 23 de agosto de 2011

Liberdade


Eu sempre ouvi falar dessa tal da liberdade, eu sempre busquei uma coisa que eu nem sabia o que era. Na minha ingenuidade de criança talvez eu achasse que liberdade era correr sem medo de cair, sentindo o vento batendo na pele, o sorriso brotando na face, as cercas ficando pra trás, nenhum pai nem mãe gritando “menina, você vai acabar se machucando”, correr até o peito não aguentar, até faltar o ar, e só então parar, colocar as mãos sobre os joelhos, recuperar o fôlego, rir daquela sensação, e ao me recuperar um pouco continuar correndo ou voltar tranquilamente pro ponto de onde eu havia partido, sem ter ninguém pra me censurar. Crescer cobra significados mais complexos daquilo que achávamos ser o mundo. Um dia eu descobri que aquilo era só coisa de criança, e percebi que liberdade era uma meta, um objetivo traçado nas nossas vidas desde quando nos dão a luz. Achei tudo complicado demais, inatingível quase, revoltei-me, quis quebrar essa barreira, provar para o mundo que a liberdade ainda existia na minha realidade. Fugi de casa, mesmo sem ter brigado com a família, eu só queria provar que era livre. Coloquei a mochila nas costas, peguei uma barraca, estourei minha pipoca, e fui sem medo algum, não como quem foge de alguma coisa, mas como quem faz o que tem vontade, não importava as consequências, eu estava ali de novo, sentindo o vento na pele, correndo de tudo e de todos, e só pararia quando eu não aguentasse mais, e só voltaria quando eu quisesse e se eu quisesse. Não foi assim que as coisas aconteceram claro, mas não importa, era eu e minha busca incessante por essa tal da liberdade que me fizeram sonhar desde pequena. Os anos passam, as broncas diminuem, as responsabilidades aumentam, e ser livre passa a ser algo totalmente material, estudar, trabalhar, ganhar seu dinheiro, seu sustento, não depender de ninguém mais, sentir o vento na pele através do seu carro, da janela da sua casa, de tudo aquilo que você comprou com o seu dinheiro. E as pessoas passam a confundir independência com liberdade. O seu trabalho ainda te impede de fazer aquela viagem tão esperada, os seus filhos necessitam que você passe a noite em casa, vai ter sempre alguma coisa dizendo pra você seu limite. Talvez o erro seja essa mania de dicionário, de significar demais, certas coisas não se determinam e pronto. Definir a liberdade é limitá-la.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Primavera


Você que foi desenhada com cautela, brinca de ser aquarela e saí pintando cores e sabores por aí. Pinta brilho nos olhos de quem te lê, desejo nos corpos de quem lhe vê.  Embaralha todas as letras, pra arrumá-las como quer, dizem ser dislexia, tua arte, tua fé. Hoje mais uma primavera, pros jardins que existem em ti, aflorando teus aromas, florescendo sentidos em mim. Mulher de carne, conta-me seus traumas, deixa-me ser cura, ser manto, alento e alimento.  Meu sorriso viu em ti espelho, causa e distração. Chão pra minha vontade de ficar, céu pra minha mania de voar. Quero da tua pele, brinquedo, ser certeza, ter medo. Quero a magia, sem deixar de fora a realidade, a vontade do infinito, à ansiedade do agora, a fotografia do que já passou colada em um álbum de retratos pra chamar de nosso. Nomear-te minha sem ser barreira, ser tua, sem nenhuma coleira, nua, pura, por inteiro, sendo metade. Atraída por tua poesia, fui atrás da poetisa, encontrei amor.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Resquícios

A qualquer imagem sua,  uma lembrança viajante, um cheiro que a lembre, um olhar distraído que te entregas em minha mente... Pobre desse coração que vive disparado, do mundo o qual consumo tanto ar de respirar ofegante e suspirar profundamente a cada resquício seu.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Boa Noite



Ela disse já se encontrar na cama, quase adormecendo e despedia-se desejando inspiração, segundos após eu contar-lhe que minhas mais belas inspirações culpavam-na como protagonista. Eu então me despedia mandando-lhe um beijo de boa noite, desejando-lhe internamente um sono leve e sonhos que a acalentassem, pois eu podia sentir, mesmo sem que me contasse, certa angústia em cada respiração aspirando ser suspiro. Eu podia vê-la deitada em sua cama, que na minha mente vinha sempre a imagem daquela cama acolchoada em lençóis brancos de um quarto de hotel, mas minha intuição diz que suas colchas seriam coloridas, em tons fortes talvez transmutados em tons palha, tua cabeça recostada no travesseiro quase o segurando como um abraço que procura consolo, quase em tom pequeno de desespero (se pode o desespero ser algo pequeno) e uma lágrima escorreria sobre tua face, logo após um pisque longo e segurado do teu olhar perdido, do teu olhar buscando querer um porto que tua alma sabe ser o mundo inteiro, e nada no mundo ao mesmo tempo. Então o prelúdio daquela primeira lágrima, segurando um dilúvio dentro desse temporal que surge em algumas noites frias e solitárias seria seguido de outras lágrimas não suportadas no mar que criaste em teu interior, mas o cansaço e o sono, do corpo, da aura achando-se fadigada de ser sem rumo, mesmo tendo percorrido todos os rumos queridos, derrotam tua tempestade pronta a desaguar e reverte a forte maré em embalo de sonhos, como um barco em meio a essas águas, que parecem fatais e estrondamente perigosas, mas que vão passando e todo aquele movimento torna-se acalento em meio ao alívio que toma cada passada sensação agora adormecida, esperando o dia seguinte, a luz do sol, o conforto do seu quente e o seu brilho libertino.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Pedido


Era madrugada fria, céu escuro e pouco estrelado, a fumaça do seu cigarro e minha respiração quente condensando-se no ar quase se misturavam, como esperança em forma de luz passa estrela cadente acenando longe pra mim e, de imediato, como criança que acredita fiel em contos de fadas, fixo os olhos no céu, seguro firme a imagem da minha estrela, tentando disfarçar peço em sussurros na mente - como se você pudesse escutar caso meus pensamentos gritassem - que você estivesse comigo e não somente ao meu lado.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Uma carta de amor.



Poeta, as estações mudaram e você não voltou pra casa. Por aqui nada mudou, mas andaram acontecendo umas coisas que deixaram tudo assim, tão diferente...
Sinto tanta falta daquele tempo que acreditávamos que tudo era pra sempre, se lembra? Por que me contou que o pra sempre, sempre acaba? Ando no limbo dessa realidade, não sei mais se devo desistir ou tentar. Conforta-me ao menos saber que o que ficou nada muda.
Penso tanto em você Cássinha, tem me sentido aí? Passamos por tanta coisa juntas... Lembra quando minha irmã nos apresentou? Apaixonei-me por você, assim, logo de cara. Andávamos juntas pra todos os lugares... Apresentei-a aos meus amigos, querendo que todos a conhecesse desesperadamente, lembra? E quando ficávamos sozinhas em casa, que bagunça, hein. Dançávamos, encenávamos, gritávamos pra todos os vizinhos verdades do coração. Você amante de um samba, sambava até as pernas não aguentarem e quando era hora de ir embora se despedia pedindo que eu não deixasse nunca o samba morrer.
E aquelas festas madrugada a fora que fazíamos na casa das minhas tias? Aquilo sim era festa e você nunca faltava a nenhuma. E quando colocamos meu irmão pra te imitar em uma delas? Ah, com você tudo era veneno pra monotonia. Recorda-se de todas as viagens que fizemos juntas? Horas e horas em um carro ou um ônibus, tanto fazia, você sempre presente... Fazendo-me sorrir, chorar, sonhar, feliz... Fazendo-me amar.
Sempre transformando o tédio em melodia, nunca precisou de muito, um trocado pra dar garantia e olhe lá. Humilde, filha da revolução, só queria saber de mudança e de amor, todo amor que houvesse na vida.
Me pego rindo suspirosa das suas coisas... Da braveza que ficou quando aquele cara musicou sua carta e ainda colocou no rádio. Da mania de mostrar o seio teu em público, dos mil cabelos diferentes, sua beleza peculiar, extravagância e timidez. Sua coragem em demonstrar amor por quem quer que fosse... De você dizendo que me ligaria quando aquele segundo sol chegasse, só querendo me contar. E quando começava a falar francês na ponta do meu ouvido? Ai, Elle... Eu caso contente.
Deusa, você me ensinou tanto, não quero entregar isso a outros braços que não sejam os seus. Tudo o que fiz sem pensar aprendi com o olhar e com as palavras que guardou pra mim. Fui impulsiva tantas vezes, fiquei insegura por você mesmo sabendo que estavas ao meu lado. Obrigada por me ensinar que o coração valia muito mais a pena que o compromisso, agora te entendo. Convidou-me a descobrir o mundo junto a você, disposta a também aprender com meu coração que carinhosamente chamavas de pequeno-grande. O que sei fazer agora veio tudo das nossas horas sem mentiras.
Outro dia enquanto chovia, passou um caminhão de rosas na minha porta, acredita? Lembrei tanto de ti... De ti e da tua loucura por flores. Tenho certeza que se estivesse por aqui sairia botando botão em todos os móveis da casa.
Ai minha poeta, eu ficava tão insegura quando dizias que sabia que iria morrer, e morria de ciúmes quando me contava que levaria saudade da Maria e da Aurora...
Vieram me contar que você não está bem... O que aconteceu? Está tendo mais uma crise? Cadê aquela Fera que existe aí dentro? Estou rezando baixo pelos cantos pra que melhores. Resiste forte, por favor, sabes que não sei pegar o ônibus da escola sozinha...

(...)
Andam dizendo por aí que você se foi, é verdade? Não quero acreditar... Cássia, se for mais uma das suas malandragens, pode parar, que essa não tem graça. Minha irmã está no quarto chorando e eu preciso saber o que digo a ela. O Nando está jogado em uma grama qualquer aos prantos e as lágrimas já escorrem pela minha face sem sentido nem direção. Ninguém quer me dizer o que realmente aconteceu. Só porque sou criança não devo saber a verdade?
Fera, bicho, anjo e mulher. Mãe, filha, irmã ou menina. Tão minha, só minha... Deus, minha Deusa, meu amor... Se você que é poeta não aprendeu a amar, que chances tenho eu, ainda mais sem você por perto...
Ah, Elle... Por onde andas?
Estou aqui, desembrulhada, vestida, volte logo, te espero.
Ps.: Vê se não vai demorar.
Tua eterna Garotinha.

sábado, 16 de abril de 2011

Orquídea


A cor púrpura das pétalas, o azul esverdeado do céu por detrás do vidro do ônibus, a abelha pousando flor por flor, os traços brancos desenhando nuances da liberdade, das cores, da natureza, da arte, do olhar puro, da mente limpa, da beleza do simples.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Páginas Rasgadas


Li suas palavras carregadas em razão e emoção, seria capaz de chorar se quisesse, mas instintivamente sequei-me. Reli suas palavras tentando degluti-las, guarda-las, grava-las se possível, com a possibilidade de me serem tomadas. Pensei em você sentada em sua escrivaninha, escrevendo-as, revezando a lágrima e a letra. Pensando em mim, tão perto e tão longe. Pensando nos nossos momentos bons, pensando nos meus sumiços sem explicação, pensando no dia em que parti e não mais voltei. Quis chorar por você, quis chorar por mim. Quis sumir de lá com aquelas folhas rasgadas de um caderno qualquer e fazer da sua dor poesia. Como posso ser assim, anjo? Serás ainda minha? Serás pra sempre minha como dizes na carta quando menciona que não estaria mais com ninguém se comigo estivesse e quando diz que não enxerga mais possibilidades de complementar-se quando te deixei incompleta pra todo o sempre?
Olhei pra cama onde tantas vezes te busquei e ela estava vazia do seu cheiro, da sua textura, dos meus devaneios. Olhei ao redor e só tinha a mim, sentada em meio a sua confusão, sozinha, acompanhada com sua solidão em palavras. Procurei vestígios da outra pelo quarto, pra tirar um pouco da culpa que eu respirava naquele ar, não sabia distinguir o que era seu e o que podia ser dela, talvez a sujeira fosse dela, mas o moletom jogado sobre a cadeira era seu, era seu e tinha seu cheiro, seu toque, seus cabelos curtos, negros e sempre molhados, por um banho ou de suor, seu nariz irritado, seu sorriso quase de lado e sua espontaneidade extremamente sensual, tudo naquele seu moletom amarelo, quase velho, o meu preferido, aliás, porque você fica linda nele. Dou-me conta de que nunca te vi acordar, nunca acordei ao seu lado, e me vem a mente que eu sempre fui embora antes, por precaução muitas vezes você sabe, mas não significa que eu não tive a oportunidade. Dou-me conta todas as vezes que penso em ti, da pessoa maravilhosa que é, e de como eu queria me sentir segura ao seu lado. Estraguei tudo várias vezes e você tantas vezes ainda me quis, nem digo que aceitou de volta, porque foram poucas as vezes nas quais voltei, eu sei. Não me dói muito dizer isso, serei eu um monstro? Doía-me a partida e ver-te sofrer, mas no fundo eu já sabia que assim seria. Não comecei assim, eu prometo. Almejei a eternidade, que tanto agora desacredito, ao seu lado, te quis desesperadamente minha, quis enfrentar o mundo com e por você e o faria se tivesse quisto junto a mim. Talvez não durasse anjo, mas não me julgues tanto, já quis ser só sua. Eu traí por você e sabe bem disso. Vou carregar o desequilíbrio eterno de consciência de não saber qual foi o certo e o errado, de colocar sempre esse sentimento em corda bamba, sem nada pra amortecer a queda. Amei-te demais, e ainda amo, mas mudei. Não completamente do jeito que vê minha mudança, mas mudei. Um amadurecimento podre do amor, doce demais pra ser suportado mais que uma mordida. Um amadurecimento que eu espero imaturo, coisa da pouca idade que tanto me julgam, que ainda espera por flores e o eterno sim. Anjo, eu não sei o que fazer com você, com o nós que é de duvidosa existência, não sei como responder diretamente sua carta, eu pra variar, não sei e continuo não sabendo.
Tenho mesmo que devolver suas palavras? Seu jeito de escrever que me impressiona e julga sua personalidade Power point, encantadora. Nunca lhe pedi perdão por não me achar digna, e mesmo assim me perdoaste, ou finges assim tê-lo feito.  Partes inteiras, é o que somos, mas ainda, partes. Perdoo-te por ser extremamente frágil e admiro sua coragem em demonstrá-la constantemente.
Anjo sabe mesmo o significado de “imprudente”? Essa palavra deveria estar no meu parágrafo de perdões. Tenho vontade de lhe pedir desculpas por fazer acreditar, me sinto pequena até pra isso. E talvez egoísta ao ponto de pensar que você errou não em acreditar, mas em acreditar tarde demais. Senti-me seu escape várias vezes. Uma fuga ingênua, sincera, mas ainda sim, um escape. Devo continuar? Serei eu merecedora de dizer-lhes minhas mágoas, minhas eternas inseguranças? Questiono-me.
Engraçado os papéis que incorporamos naquela linda serenata a qual presenciamos.
Senti-te ali também e sabia que me sentia reciprocamente. Na sua peça eu era a moça que apagava a luz fingindo não a ver, fechava a janela pra que fosses embora. No meu palco eu segurava o violão e cantava minha vontade e coragem em declarar-te meu amor.
Por que impomos tantas condições nesse tal do amor, anjo? Por quê? Complica demais as coisas e de complicada basta a mim.  Tenho medo da sua solidão necessitada vorazmente de companhia. Aprendi a ser sozinha e a apreciar tal solidão. Não sei ser metade o tempo inteiro. E se por você aprendo e tu descobres que não lhe basto mais? Afundarei na solidão que luto diariamente pra não existir em mim, a de ser sozinha por completo, a de bastar-me... Não me basto, não quero nunca me bastar. Nunca! Não sei abdicar da minha vida pra viver a nossa vida. Egoísmo? Talvez... Pode ser que não. Sou humana e quero crescer em mim, de mim, pra mim. Preciso disso, dessa vida, dessa falta de chão, por agora, por enquanto...
Causei-me em você certo? Culpada, confesso. Mas se permaneci foi tu quem quis. Aprende, na vida não se premedita tudo, as coisas acontecem e isso me fascina, me seduz, o inesperado me salva diariamente. Desculpe te jogar no meu abismo. No fundo sinto alívio por sua falta de arrependimento, consegue ver que da vida se tira proveito de tudo. Crescemos juntas com nosso romance, nossas loucuras e meus desencontros, meus repetidos pontos finais tão reticentes.
Não, não finalize nada com essas palavras. Você sente que não é assim, e escrever mentiras também é mentir. Vamos deixar o tempo agir, conversar talvez, resolver alguma coisa nesse monte de coisas mal resolvidas. Não corra com essas palavras fingindo que acabaram, sei te sentir até em letras. Se tropeçar em mim por aí, não guarde esse tapa na cara, aquela fala em nó na garganta ou um beijo em teus lábios. Vale realmente a pena: “Amar, perder, crescer”. Vale muitas penas.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Doce.


Você é doce.
Aquele que dá vontade depois do salgado.
Aquele que a gente pede demais quando sabe ser criança.
Aquele que a gente sabe degustar quando se cresce.
Cria receitas, enfeita festas...
Oferece serotonina nas noites frias e solitárias.
Ou refresca e lambuza em um dia de sol.
Pra mim você é doce.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Tua droga


Tragava-me, lentamente, como um cigarro que acendia e apagava, reacendia e apagava. Gostava de ver a chama voltar a queimar, gostava de sugar fundo e lento minha essência, segurava em suas entranhas, deixando-me visceral pra depois soltar em fumaça cinza, apagando-me com ar de desejo saciado, deixando pra mais tarde, ou outro dia, aquele resto jogado no cinzeiro.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Nua


Destemida e decidida, seguiu pela ponte, pela noite clara pela lua cheia, levada por instinto, desejo e pelo vento em seu corpo palpitante. Podia sentir cada passo a frente, podia pensar que voava andando.
Movimentando sutilmente os ombros abandona o manto que a cobre, despe-se, torna o complemento noturno pequeno com o contorno de seu seio, com a fina silhueta e com curvas de quem ousa. Nua do mundo, nada a poderia deter, depois dela, existiria apenas, ela. Caminha e em um impulso pula nas águas negras do lago que entra em choque com seu corpo quente e emerge um brilho prateado de gozo.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Você


Meu Deus como conseguiu? Olha pra essa tua obra, que se fez arte... Quanta perfeição.
Humana. Mais que todos. Ao meu olhar... Esquece o meu olhar! O seu olhar, Deus, os seus olhos... Quem diz que olhos claros são os mais belos nunca conheceu o brilho que os seus olhos castanhos tem. Eu consigo te puxar na memória quando inspiro você fundo. Por que pra ser sincera sua imagem se perde às vezes, li algo por ai que isso é normal quando nos apaixonamos, então compreendi. Céus! Estou falando de paixão pra você. Esquece! Céus, vários deles com você. Eu já não nego, eu me entrego, é paixão. É mais que isso. É aquele sentimento confuso que todo mundo tenta definir, mas na verdade, não precisa de definição, ele é e ponto, simples. Quando eu vou falar de você, me perco. Tudo é pequeno, não basta. Culpa sua. De ser esse mundo todo, esse meu mundo todo.  Recordo-me criança, quando conheci uma mulher Portuguesa, como eram lindos aqueles olhos... Você tem o redondo dos olhos portugueses com certo tom mais delicado. Os dela eram grandes, bem grandes. Os seus também são, mas mais delicados. Claro, são os seus olhos. Aí, fico assim, ridícula ao falar de você. O que posso fazer? Essa tua face desenhada, esse teu corpo definido. Perdi-me pra sempre. Pra sempre! Não importa quantas vezes eu decida que isso vai mudar, é só te ver que tudo desmorona, dentro, de mim. Eu me perco. Pra sempre e sempre. Não importa. Quero você assim, minha, pra mim. Mesmo não sendo. É. E eu já aceito a condição, que você não impôs, que o acaso (que não existe) me propôs.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Casamento


Amanhece. Nós duas em uma cama de casal, brancamente acolchoada, em um quarto claro, com apenas uma janela de madeira, por onde o sol entra e aquece. Meu cheiro misturado ao seu, cheiro matinal... Leio o jornal, e sustento um óculos de armadura preta, meio retangular no meio do nariz. Há uma xícara de café na cômoda marrom madeira do meu lado da cama, deixando o cheiro de café fresco se misturar ao nosso cheiro matinal, com resquícios do nosso cheiro noturno.Você me observa ler. Observa com olhos enamorados... E puxa a colcha pro seu lado, tentando chamar atenção. Arrisca um beijo, que eu carinhosamente desatencio e continuo a prestar atenção nas notícias do dia. Você insiste, empurra meu jornal, com um sorriso de “desculpa, mas eu quero você”... E eu me deixo vencer. Perdemo-nos. Em um beijo, apaixonado, com gosto de café, de manhã e de amor.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Dorme Pequena

Venha pequeno anjo de luz, venha pros meus braços e me deixa cuidar da sua fragilidade, da sua pureza que tão logo passa e contra isso eu não posso fazer nada. Venha, anjinho que ilumina, acolhe teu sono no meu corpo, que eu cuido de você. Deixa-me sentir seus cabelos lisos naturais escorrendo pela minhas costas, enquanto sua cabeça recosta em meu ombro, sonolenta, já sonhando, sem precisar temer o mundo, pedindo por histórias, contos de fada, com cavalo branco e um beijo de príncipe. Dorme pequena, dorme que eu estou aqui, zelando seu sono, iluminando a escuridão desse quarto e trancando o guarda roupa. Aqui não tem monstros menina, e em baixo da cama tem apenas seu baú de brinquedos, olhe aqui, eu seguro sua mão. Dorme pequena, que eu beijo tua face, tua pele inocente, teu carinho de menina, teu sorriso de filha. Dorme minha menina, e sonha, porque o mundo te espera.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Passagem

E chorava, por detrás das lentes escuras, encostada na escada de uma rodoviária. Precisava voltar, fugir daquela situação, daquele manto de humilhação ao qual se propôs. As pessoas a observavam, e imaginavam os vários motivos pelo qual alguém choraria em um ponto de partida, passagem e chegada.
Seria aquela uma viajante solitária? Seria ela uma abandonada sem rumo? Estaria ela deixando seu amor? Teria ela sido deixada? Correria ao encontro de um desastre? Pobre menina por detrás daqueles óculos escuros, segurando sua bagagem, de passagem, distante, fugindo, de volta pra casa.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

A todos que me esperaram ou esperaram uma ligação.

Bom, eu não fui. E não liguei. Desculpe-me a falta de educação. Na maioria das vezes, pra ser sincera, nem tinha motivos reais. E nem deixei de ir porque não quis, mas também, muitas vezes, não fui não porque não pude. Eu sei, é complicado de explicar e eu nem sei se posso, ou consigo. Mas se eu não liguei, não foi para te magoar, pelo contrário, foi tentando não lhe magoar.
Devo estar lhe deixando confusa, né? Desculpe... Eu sei que pensou que eu fosse.
Eu sei que esperou por mim alguns minutos após o horário que estipulou para que eu pudesse ligar, e eu sei até que não se importaria se eu ligasse muito tempo depois desse horário, contanto que eu ligasse. Olha, eu queria mesmo chegar lá correndo, com ar de quem estava cansada e até um pouco suada por tentar driblar os obstáculos entre nosso encontro como uma desculpa pelo atraso. Ou queria criar uma coragem de última hora, pegar uma desculpa esfarrapada no bolso e chegar lá com ela na minha cara lavada de menina, te fazendo acreditar em uma mentira inocente porque o importante não era se o motivo pelo atraso era verdadeiro ou não, mas sim que eu tivesse chegado. Eu sei que você me perdoaria, com cara de quem já me conhece, com um sorriso de quem ganhou uma batalha, pensando que me faz pensar que eu era a esperta por lhe fazer acreditar mas se achando a esperta por me fazer estar ali. Independente de qualquer coisa, isso tudo ficaria pra trás. Mas eu não fui.
Não fui e não liguei. E você ligou, tarde, um pouco alcoolizada, e depois de muito ter discutido com seu amigo sobre o meu descaso, resolveu ligar com ar de quem já não se importava e só queria dizer que eu não precisava nem ir, nem ligar, mas que eu também não deveria prometer ir ou ligar, se essa não fosse minha intenção. E eu te contei uma história, que não era mentira, mas que também não era motivo o suficiente pra não aparecer que você fingiu acreditar, acreditando, e mesmo chateada quis encontrar naquele motivo algo o bastante pra eu não estar ali. Para cada razão que eu desse, você teria uma excelente resposta na ponta da língua, afiada e irônica. Para cada silêncio meu, um suspiro seu. Para cada eminente sensatez que eu mostrasse ter em relação ao acontecimento, uma pressuposta loucura sua, específica.
Se eu ligasse do celular, você não acreditando, seria rude e fria, ainda sim irônica. Se eu tivesse ligado da minha casa, mesmo chateada por eu preferir ficar em casa, tentaria, ainda, me convencer a ir, como uma última chance, que você me daria tantas outras vezes. Caso eu ligasse do trabalho, riria do acaso, zombaria da minha vida social, ou da falta dela.
Eu sei, não foi apenas uma vez que eu deixei de ir, ou de ligar, e que você buscou tantas outras alternativas, como rota de fuga. Chegou a conseguir um taxi pra mim de madrugada, em uma noite tempestiva, quando a cidade inteira tentava conseguir um.
Por muitas vezes, segurou todas essas verdades até não poder mais pra tentar manter a calma e não transparecer nada. Por muitas vezes manteve a calma pra não dizer tudo que eu merecia ouvir. Por muitas vezes você tudo, e eu nada.
Mando essa carta, portanto, como a resposta que você não esperava. Já que não mais espera que eu seja capaz de retornar alguma coisa e já se acostumou com minha falta de resposta, preferindo acostumar-se ao vazio, e não a espera.
Olhe, deixe pra lá, se assim preferir. Mas me desculpe, por não ir e não ligar. Esse vacilo, deveria ser para algum dia, ou motivo especial, e eu nem nos dei a oportunidade de ter esse dia ou motivo. E isso me pesa o pensamento, pra ser sincera, não a consciência. Talvez, seja positivo, o aperto ser no coração, e não na ética do assunto. Afinal, por mais que pareça, eu não fui apenas mais uma idiota que se esqueceu de ir.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Velhice

E lá estava ela, não parecia ter perdido a sanidade, mas parecia cansada, não aquele cansaço físico que nos pertence após uma atividade, mas uma cansaço da vida, transparente em seus pequenos olhos azuis. Sua pele era fina e seu corpo magro e frágil, assim como seu estado. Eu tinha nas mãos uma desconhecida, a quem coloquei nos braços como se fosse um bebê, desconhecedor do mundo, necessitado de ajuda e colo.
- Você é minha nora?
- Não... (sorri sem jeito)
E mesmo diante a uma resposta negativa e a desconhecer quem eu era, ela retribuía o carinho que eu fazia em seu colo tentando acalmá-la com suas frágeis mãos em minha perna. Aqueles pequenos olhinhos perdidos em mim procuravam por alguém conhecido, procurava por razão e segurança.
- Conte-me do seu filho, como ele é?
- Meu filho vem me buscar, ele é um bom filho... Sabe, minha mãe mora aqui, ela pediu para que eu viesse encontrar com ela. Você a viu? Ela precisa de mim.
- Não, eu não a vi. Mas seu filho já vem lhe buscar, não se preocupe.
E aquela senhora, como uma criança, fechava seus olhos, tentando descansar, ou segurar sua preocupação. Tentando segurar lágrimas e certa agonia que aumentava em seu peito.
- Eu acho que vou embora.
- Fique! Seu filho vai vir buscá-la, espere-o comigo... Se não como vou conhecê-lo?
A casa não estava cheia, tínhamos presente minha mãe, minha irmã e a cunhada da minha protagonista, que queria ir embora por que sentia que incomodava, porque  tinha que achar sua mãe. Todas corriam para um lado e para o outro atrás de um número de telefone perdido. Uma reclamava que a dona Zezé, a cunhada e também uma senhora já de idade deveria ter esses telefones em fácil acesso, a outra corrigia e insistia em uma ambulância e a dona perdida folheava seus rabiscos em busca de uma solução. Gritavam pelos telefones que ela não estava em seu juízo, que ela procurava pelos pais que já haviam morrido a anos e diziam isso como se uma senhora louca não pudesse entende-los nem escutá-los...
- A casa está cheia." (cochichava a senhora) "Acho que vou embora.
- Não, fique! Elas conseguiram falar com seu filho... O Wagner, certo?
Sem esperar resposta disse que ele já estava a caminho.
E ligavam, e agonizavam, como se alguém de idade estivesse prestes a morrer naquela cama, prevendo a passagem da velhice a morte, sem notar a frágil mulher que necessitava de atenção.
Eu podia sentir sua respiração em minhas mãos, queria que ela me sentisse ao seu lado, e sua fragilidade respirava lentamente, querendo partir, querendo encontrar seus pais, e eu de certa forma não temia...
- Seu sobrinho chegou! Vamos levá-la ao hospital.
-Tia, você sabe quem eu sou?
-Não... Você é meu médico?
- Ele é seu sobrinho.
-Quem é você?
-Sou sua cunhada, Zézé.
A velhinha agora aos prantos implorava por seus pais que a esperavam em algum lugar. E mesmo todos a olhando com olhos de piedade, como se segurassem nos braços alguém que perdera a sanidade, a pergunta soava em minha cabeça: e se seus pais realmente a estivessem chamando?
- Eles vão lhe levar ao médico, fique com Deus.
- Você é minha médica?
- Não...
-Pensei que você fosse minha médica... Quem é você?
- Eu sou sua amiga.
-Ah... Obrigada, por ser minha amiga.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Foi quando me dei conta...



Eu percebi que como você pela manhã, estudo com você, almoço você, durmo com você, sonho com você, falo em você... Eu percebi que respiro você! Foi só você ficar por perto, resolver me ler,  perceber-me, que você se percebeu. Eu tenho medo disso.

Ela...


E então você percebe que vai amá-la pra sempre. Que vai ler frases bonitas e pensar nela, que vai deitar a cabeça em seu travesseiro e repousar ela, que vai sentar-se na grama do campo onde a conhecera, fechar os olhos, e tentar rever cada segundo daquela noite sempre que passar por aquele local, que seu coração vai palpitar cada vez que chegar o momento de revê-la, que você fingirá naturalidade quando ela então aparecer caminhando em sua direção. Você percebe que ficará online quando ela conectar na esperança de uma possível conversa, que vai derrama-la pelo rosto quando se sentir cheia disso tudo, mas deixará que algumas lágrimas escorram até seus lábios para que se sacie um pouco do amor por ela. Você percebe que será assim para sempre, surgirão novas lembranças, novos lugares a se sentar e recolher memórias, novas esperas... Mas que o novo realmente nunca virá. Você percebe que de certa forma não se importa e que nunca vai deixar de amá-la. Que talvez conte isto a ela um dia, talvez em seu leito de morte, muito provável em uma carta.

domingo, 28 de novembro de 2010

Me da um tempo vai!

É verdade, pessoas tem mania de tempo. Tempo pra poder gostar, tempo em relacionamento, tempo pra esquecer, tempo pra se recompor, tempo, tempo, tempo... ACORDA MINHA GENTE!  E se essa coisa de morrer amanhã acontecer mesmo? Quem garante que não? Que isso é drama, blá blá, pessimismo, blá blá... Não minha gente, isso é realidade! Vivemos perdendo tempo de tudo apenas por dar tempo pra/em tudo. Parece uma regra sabe? E isso acua as pessoas, que acham que se você não segue a regra do tempo você é ousada demais.
Se você demostra que gosta muito cedo, você é dada como carente. Se você termina de cara algo que não está dando certo, você não dá chance de ter certeza. Se você se recupera logo você não se importa e é promíscua por querer levar a bola pra frente. Se, se, se... Tempo, tempo, tempo... Não percebem? To cansada! Eu quero gostar no dia seguinte e poder ligar. Porque quem liga no terceiro, quarto dia está fazendo jogo, pode apostar! Chega de joguinhos, chega, sabe! Tem muita gente aí que enche a boca pra dizer que aproveita a vida, que vive dando lição de moral nesse estilo e quando vai ver é mais um tomado pela regra temporal. Temporal na minha cabeça que não aguenta mais esperar. As vezes é preciso parar, eu sei. Mas, ÀS VEZES, por favor.  Tempo é curto, essa é a verdade. E estamos perdendo ele parados, lamentando, esperando... Mesmo que não se morra amanhã, um dia se morre, e aí? E aí que você ficou cheia de tempos na vida, perdidos. 
Eu não vou mais perder o meu se quer saber, e se atitudes te assusta, reveja o seus conceitos. Se eu gostar de você eu vou dizer. Se você não for o meu número eu não vou te calçar mais. E eu vou continuar vivendo oras, nesse instante, no dia seguinte e por aí vai.  Agora, se for você quem eu quero pra vida toda, eu vou comprar um buquê um anel e preparar meu melhor sorriso pra pedir um tempo especial, o de passar o resto dele ao seu lado.