Poeta, as estações mudaram e você não voltou pra casa. Por aqui nada mudou, mas andaram acontecendo umas coisas que deixaram tudo assim, tão diferente...
Sinto tanta falta daquele tempo que acreditávamos que tudo era pra sempre, se lembra? Por que me contou que o pra sempre, sempre acaba? Ando no limbo dessa realidade, não sei mais se devo desistir ou tentar. Conforta-me ao menos saber que o que ficou nada muda.
Penso tanto em você Cássinha, tem me sentido aí? Passamos por tanta coisa juntas... Lembra quando minha irmã nos apresentou? Apaixonei-me por você, assim, logo de cara. Andávamos juntas pra todos os lugares... Apresentei-a aos meus amigos, querendo que todos a conhecesse desesperadamente, lembra? E quando ficávamos sozinhas em casa, que bagunça, hein. Dançávamos, encenávamos, gritávamos pra todos os vizinhos verdades do coração. Você amante de um samba, sambava até as pernas não aguentarem e quando era hora de ir embora se despedia pedindo que eu não deixasse nunca o samba morrer.
Penso tanto em você Cássinha, tem me sentido aí? Passamos por tanta coisa juntas... Lembra quando minha irmã nos apresentou? Apaixonei-me por você, assim, logo de cara. Andávamos juntas pra todos os lugares... Apresentei-a aos meus amigos, querendo que todos a conhecesse desesperadamente, lembra? E quando ficávamos sozinhas em casa, que bagunça, hein. Dançávamos, encenávamos, gritávamos pra todos os vizinhos verdades do coração. Você amante de um samba, sambava até as pernas não aguentarem e quando era hora de ir embora se despedia pedindo que eu não deixasse nunca o samba morrer.
E aquelas festas madrugada a fora que fazíamos na casa das minhas tias? Aquilo sim era festa e você nunca faltava a nenhuma. E quando colocamos meu irmão pra te imitar em uma delas? Ah, com você tudo era veneno pra monotonia. Recorda-se de todas as viagens que fizemos juntas? Horas e horas em um carro ou um ônibus, tanto fazia, você sempre presente... Fazendo-me sorrir, chorar, sonhar, feliz... Fazendo-me amar.
Sempre transformando o tédio em melodia, nunca precisou de muito, um trocado pra dar garantia e olhe lá. Humilde, filha da revolução, só queria saber de mudança e de amor, todo amor que houvesse na vida.
Me pego rindo suspirosa das suas coisas... Da braveza que ficou quando aquele cara musicou sua carta e ainda colocou no rádio. Da mania de mostrar o seio teu em público, dos mil cabelos diferentes, sua beleza peculiar, extravagância e timidez. Sua coragem em demonstrar amor por quem quer que fosse... De você dizendo que me ligaria quando aquele segundo sol chegasse, só querendo me contar. E quando começava a falar francês na ponta do meu ouvido? Ai, Elle... Eu caso contente.
Deusa, você me ensinou tanto, não quero entregar isso a outros braços que não sejam os seus. Tudo o que fiz sem pensar aprendi com o olhar e com as palavras que guardou pra mim. Fui impulsiva tantas vezes, fiquei insegura por você mesmo sabendo que estavas ao meu lado. Obrigada por me ensinar que o coração valia muito mais a pena que o compromisso, agora te entendo. Convidou-me a descobrir o mundo junto a você, disposta a também aprender com meu coração que carinhosamente chamavas de pequeno-grande. O que sei fazer agora veio tudo das nossas horas sem mentiras.
Outro dia enquanto chovia, passou um caminhão de rosas na minha porta, acredita? Lembrei tanto de ti... De ti e da tua loucura por flores. Tenho certeza que se estivesse por aqui sairia botando botão em todos os móveis da casa.
Ai minha poeta, eu ficava tão insegura quando dizias que sabia que iria morrer, e morria de ciúmes quando me contava que levaria saudade da Maria e da Aurora...
Vieram me contar que você não está bem... O que aconteceu? Está tendo mais uma crise? Cadê aquela Fera que existe aí dentro? Estou rezando baixo pelos cantos pra que melhores. Resiste forte, por favor, sabes que não sei pegar o ônibus da escola sozinha...
(...)
Andam dizendo por aí que você se foi, é verdade? Não quero acreditar... Cássia, se for mais uma das suas malandragens, pode parar, que essa não tem graça. Minha irmã está no quarto chorando e eu preciso saber o que digo a ela. O Nando está jogado em uma grama qualquer aos prantos e as lágrimas já escorrem pela minha face sem sentido nem direção. Ninguém quer me dizer o que realmente aconteceu. Só porque sou criança não devo saber a verdade?
Fera, bicho, anjo e mulher. Mãe, filha, irmã ou menina. Tão minha, só minha... Deus, minha Deusa, meu amor... Se você que é poeta não aprendeu a amar, que chances tenho eu, ainda mais sem você por perto...
Ah, Elle... Por onde andas?
Estou aqui, desembrulhada, vestida, volte logo, te espero.
Ps.: Vê se não vai demorar.
Tua eterna Garotinha.


