segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Casamento


Amanhece. Nós duas em uma cama de casal, brancamente acolchoada, em um quarto claro, com apenas uma janela de madeira, por onde o sol entra e aquece. Meu cheiro misturado ao seu, cheiro matinal... Leio o jornal, e sustento um óculos de armadura preta, meio retangular no meio do nariz. Há uma xícara de café na cômoda marrom madeira do meu lado da cama, deixando o cheiro de café fresco se misturar ao nosso cheiro matinal, com resquícios do nosso cheiro noturno.Você me observa ler. Observa com olhos enamorados... E puxa a colcha pro seu lado, tentando chamar atenção. Arrisca um beijo, que eu carinhosamente desatencio e continuo a prestar atenção nas notícias do dia. Você insiste, empurra meu jornal, com um sorriso de “desculpa, mas eu quero você”... E eu me deixo vencer. Perdemo-nos. Em um beijo, apaixonado, com gosto de café, de manhã e de amor.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Dorme Pequena

Venha pequeno anjo de luz, venha pros meus braços e me deixa cuidar da sua fragilidade, da sua pureza que tão logo passa e contra isso eu não posso fazer nada. Venha, anjinho que ilumina, acolhe teu sono no meu corpo, que eu cuido de você. Deixa-me sentir seus cabelos lisos naturais escorrendo pela minhas costas, enquanto sua cabeça recosta em meu ombro, sonolenta, já sonhando, sem precisar temer o mundo, pedindo por histórias, contos de fada, com cavalo branco e um beijo de príncipe. Dorme pequena, dorme que eu estou aqui, zelando seu sono, iluminando a escuridão desse quarto e trancando o guarda roupa. Aqui não tem monstros menina, e em baixo da cama tem apenas seu baú de brinquedos, olhe aqui, eu seguro sua mão. Dorme pequena, que eu beijo tua face, tua pele inocente, teu carinho de menina, teu sorriso de filha. Dorme minha menina, e sonha, porque o mundo te espera.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Passagem

E chorava, por detrás das lentes escuras, encostada na escada de uma rodoviária. Precisava voltar, fugir daquela situação, daquele manto de humilhação ao qual se propôs. As pessoas a observavam, e imaginavam os vários motivos pelo qual alguém choraria em um ponto de partida, passagem e chegada.
Seria aquela uma viajante solitária? Seria ela uma abandonada sem rumo? Estaria ela deixando seu amor? Teria ela sido deixada? Correria ao encontro de um desastre? Pobre menina por detrás daqueles óculos escuros, segurando sua bagagem, de passagem, distante, fugindo, de volta pra casa.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

A todos que me esperaram ou esperaram uma ligação.

Bom, eu não fui. E não liguei. Desculpe-me a falta de educação. Na maioria das vezes, pra ser sincera, nem tinha motivos reais. E nem deixei de ir porque não quis, mas também, muitas vezes, não fui não porque não pude. Eu sei, é complicado de explicar e eu nem sei se posso, ou consigo. Mas se eu não liguei, não foi para te magoar, pelo contrário, foi tentando não lhe magoar.
Devo estar lhe deixando confusa, né? Desculpe... Eu sei que pensou que eu fosse.
Eu sei que esperou por mim alguns minutos após o horário que estipulou para que eu pudesse ligar, e eu sei até que não se importaria se eu ligasse muito tempo depois desse horário, contanto que eu ligasse. Olha, eu queria mesmo chegar lá correndo, com ar de quem estava cansada e até um pouco suada por tentar driblar os obstáculos entre nosso encontro como uma desculpa pelo atraso. Ou queria criar uma coragem de última hora, pegar uma desculpa esfarrapada no bolso e chegar lá com ela na minha cara lavada de menina, te fazendo acreditar em uma mentira inocente porque o importante não era se o motivo pelo atraso era verdadeiro ou não, mas sim que eu tivesse chegado. Eu sei que você me perdoaria, com cara de quem já me conhece, com um sorriso de quem ganhou uma batalha, pensando que me faz pensar que eu era a esperta por lhe fazer acreditar mas se achando a esperta por me fazer estar ali. Independente de qualquer coisa, isso tudo ficaria pra trás. Mas eu não fui.
Não fui e não liguei. E você ligou, tarde, um pouco alcoolizada, e depois de muito ter discutido com seu amigo sobre o meu descaso, resolveu ligar com ar de quem já não se importava e só queria dizer que eu não precisava nem ir, nem ligar, mas que eu também não deveria prometer ir ou ligar, se essa não fosse minha intenção. E eu te contei uma história, que não era mentira, mas que também não era motivo o suficiente pra não aparecer que você fingiu acreditar, acreditando, e mesmo chateada quis encontrar naquele motivo algo o bastante pra eu não estar ali. Para cada razão que eu desse, você teria uma excelente resposta na ponta da língua, afiada e irônica. Para cada silêncio meu, um suspiro seu. Para cada eminente sensatez que eu mostrasse ter em relação ao acontecimento, uma pressuposta loucura sua, específica.
Se eu ligasse do celular, você não acreditando, seria rude e fria, ainda sim irônica. Se eu tivesse ligado da minha casa, mesmo chateada por eu preferir ficar em casa, tentaria, ainda, me convencer a ir, como uma última chance, que você me daria tantas outras vezes. Caso eu ligasse do trabalho, riria do acaso, zombaria da minha vida social, ou da falta dela.
Eu sei, não foi apenas uma vez que eu deixei de ir, ou de ligar, e que você buscou tantas outras alternativas, como rota de fuga. Chegou a conseguir um taxi pra mim de madrugada, em uma noite tempestiva, quando a cidade inteira tentava conseguir um.
Por muitas vezes, segurou todas essas verdades até não poder mais pra tentar manter a calma e não transparecer nada. Por muitas vezes manteve a calma pra não dizer tudo que eu merecia ouvir. Por muitas vezes você tudo, e eu nada.
Mando essa carta, portanto, como a resposta que você não esperava. Já que não mais espera que eu seja capaz de retornar alguma coisa e já se acostumou com minha falta de resposta, preferindo acostumar-se ao vazio, e não a espera.
Olhe, deixe pra lá, se assim preferir. Mas me desculpe, por não ir e não ligar. Esse vacilo, deveria ser para algum dia, ou motivo especial, e eu nem nos dei a oportunidade de ter esse dia ou motivo. E isso me pesa o pensamento, pra ser sincera, não a consciência. Talvez, seja positivo, o aperto ser no coração, e não na ética do assunto. Afinal, por mais que pareça, eu não fui apenas mais uma idiota que se esqueceu de ir.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Velhice

E lá estava ela, não parecia ter perdido a sanidade, mas parecia cansada, não aquele cansaço físico que nos pertence após uma atividade, mas uma cansaço da vida, transparente em seus pequenos olhos azuis. Sua pele era fina e seu corpo magro e frágil, assim como seu estado. Eu tinha nas mãos uma desconhecida, a quem coloquei nos braços como se fosse um bebê, desconhecedor do mundo, necessitado de ajuda e colo.
- Você é minha nora?
- Não... (sorri sem jeito)
E mesmo diante a uma resposta negativa e a desconhecer quem eu era, ela retribuía o carinho que eu fazia em seu colo tentando acalmá-la com suas frágeis mãos em minha perna. Aqueles pequenos olhinhos perdidos em mim procuravam por alguém conhecido, procurava por razão e segurança.
- Conte-me do seu filho, como ele é?
- Meu filho vem me buscar, ele é um bom filho... Sabe, minha mãe mora aqui, ela pediu para que eu viesse encontrar com ela. Você a viu? Ela precisa de mim.
- Não, eu não a vi. Mas seu filho já vem lhe buscar, não se preocupe.
E aquela senhora, como uma criança, fechava seus olhos, tentando descansar, ou segurar sua preocupação. Tentando segurar lágrimas e certa agonia que aumentava em seu peito.
- Eu acho que vou embora.
- Fique! Seu filho vai vir buscá-la, espere-o comigo... Se não como vou conhecê-lo?
A casa não estava cheia, tínhamos presente minha mãe, minha irmã e a cunhada da minha protagonista, que queria ir embora por que sentia que incomodava, porque  tinha que achar sua mãe. Todas corriam para um lado e para o outro atrás de um número de telefone perdido. Uma reclamava que a dona Zezé, a cunhada e também uma senhora já de idade deveria ter esses telefones em fácil acesso, a outra corrigia e insistia em uma ambulância e a dona perdida folheava seus rabiscos em busca de uma solução. Gritavam pelos telefones que ela não estava em seu juízo, que ela procurava pelos pais que já haviam morrido a anos e diziam isso como se uma senhora louca não pudesse entende-los nem escutá-los...
- A casa está cheia." (cochichava a senhora) "Acho que vou embora.
- Não, fique! Elas conseguiram falar com seu filho... O Wagner, certo?
Sem esperar resposta disse que ele já estava a caminho.
E ligavam, e agonizavam, como se alguém de idade estivesse prestes a morrer naquela cama, prevendo a passagem da velhice a morte, sem notar a frágil mulher que necessitava de atenção.
Eu podia sentir sua respiração em minhas mãos, queria que ela me sentisse ao seu lado, e sua fragilidade respirava lentamente, querendo partir, querendo encontrar seus pais, e eu de certa forma não temia...
- Seu sobrinho chegou! Vamos levá-la ao hospital.
-Tia, você sabe quem eu sou?
-Não... Você é meu médico?
- Ele é seu sobrinho.
-Quem é você?
-Sou sua cunhada, Zézé.
A velhinha agora aos prantos implorava por seus pais que a esperavam em algum lugar. E mesmo todos a olhando com olhos de piedade, como se segurassem nos braços alguém que perdera a sanidade, a pergunta soava em minha cabeça: e se seus pais realmente a estivessem chamando?
- Eles vão lhe levar ao médico, fique com Deus.
- Você é minha médica?
- Não...
-Pensei que você fosse minha médica... Quem é você?
- Eu sou sua amiga.
-Ah... Obrigada, por ser minha amiga.