O mundo é um restaurante francês. E quando o assunto é
comida e França, ah meu caro amigo, coração e barriga são quase um órgão só.
Julia Roberts me entenderia. Só que comigo é tudo sempre ao contrário, pra
variar. Ah verdade, é que eu provaria de um quase tudo. Principalmente se
tratando de sobremesa. É a minha parte favorita. Vitrines iluminadas e
quentinhas. Redomas resfriadas, daquelas que a gente olha e já sente a
fumacinha saindo do hálito quente ao seu imaginar lá dentro. Todas exposta,
pedindo atenção para suas cores, texturas e sabores. Algumas são tão lindas,
delicadas, detalhe por detalhe perfeitas, que dá pra passar horas só admirando,
cada pedacinho, o conjunto todo, o cheiro, imaginar o sabor, as sensações ‘palativas’,
físicas e emocionais, a boca enche de água, tem momentos que dá vontade de ‘cair
matando’ e experimentar tudo de uma vez só, ou só tirar um pedacinho, pra poder
saborear de pouquinho em pouquinho, deixar o gosto na boca por muito tempo.
Mas o embate cai sempre entre a gelatina e o creme brulèe.
Eu sei, eu sei, não tem comparação. Eu também concordo. Como poderia alguém em
sã consciência trocar creme brulèe por gelatina. Aquela camada fina e crocante,
pedindo pra ser quebrada com uma colherzinha de sobremesa, como em um filme
francês, a là Amelie Poulain. A consistência visual já diz quase tudo, e o
sabor só surpreende, tanto que eu quase não consigo descrever. Sim, Julia
Roberts, "É lindo
“É lindo, é doce e irritantemente perfeito.” Não enjoa, e eu comeria todos os dias, sem reclamar, sem me cansar. Mas sabe aquela sensação de desejo de grávida que a gente não controla? Por sabores inesperados e de necessidade iminente? Gelatina! Eu sei, Cameron... Gelatina? “Eu sei que comparado ao creme brulèe... Só que gelatina é o que ele precisa.” E não, Cameron, você não pode ser gelatina. “É que creme brulèe nunca vai ser uma gelatina” E eu nem gosto muito de gelatina. Mas certas coisas não são racionais, não se explicam e não se entendem. Gelatina é um compromisso. Não é maleável como a da Julia Roberts, mas se adapta bem aos meus sabores favoritos. Se eu pudesse escolher, não seria Gelatina. Mas quem foi que conseguiu mandar no coração mesmo? Ou a gente ta falando de comida?